UMA VIDA A PARTIR DAS COXIAS DE TEATRO

UMA VIDA A PARTIR DAS COXIAS DE TEATRO

Foi assim que Fernanda Torres passou sua infância. Filha de um dos nomes mais importantes do teatro brasileiro, a atriz Fernanda Montenegro, e do também ator Fernando Torres, seus primeiros anos não poderiam ter sido diferentes. Vivendo em um mundo de arte, crítica, improviso e experimentação, sua carreira passeia por diversas áreas: é atriz, roteirista, apresentadora e, mais recentemente, escritora.

Em 2017 lançou sua terceira obra: A glória e seu cortejo de horrores que traz a derrocada de um ator de meia idade após a fama. A relação – entre artista e fama -, aliás, lhe causa bastante incômodo. “Confunde-se muito arte e fama atualmente, me recuso a encarar isso com naturalidade, me sinto ofendida, para ser sincera. O objetivo do artista não é a fama, é a comunicação”, conta a escritora. Em entrevista exclusiva à LER&CIA, Fernanda fala também de outros temas como velhice, carreira, família, rejeitação à cultura, engajamento e leitura no Brasil.

LER&CIA | Após o lançamento do seu terceiro livro – segundo romance – como você define a Fernanda escritora? E como ela conversa com a Fernanda atriz?

Fernanda Torres | Em tudo. Costumo dizer que a literatura, a voz, é aquilo que o ator pensa e imagina entre falas. Existe uma grande resistência a se reconhecer autoria na profissão de ator. Mas há, e muita. Para dar corpo a uma fala, é preciso um enorme esforço de imaginação, é preciso acessar uma emoção através da memória. Recentemente, reli algumas páginas de A casa dos budas ditosos (Objetiva), peça que faço há mais de uma década. O texto lido parecia uma partitura em branco. Os mais de doze anos de intimidade que desenvolvi com ele dotaram cada parágrafo, cada frase, de um memorial infinito, algo que não estava lá, na primeira vez em que o li. Ele mistura lembranças da minha vida, dos ensaios, da convivência com o Ubaldo, com o Domingos, seria possível escrever outro livro, só com o que acumulei na cabeça para poder encarnar a baiana. Stephen Berkoff fez isso, ele escreveu I am Hamlet depois que encerrou a temporada da peça. Nesse livro, ele recriou tudo o que pensava em cena, que vai desde um autoelogio até passagens históricas. Fui criada no teatro do improviso, que te obriga a entrar num papel e fazê-lo falar, o que ajudou imenso na hora de criar personagens. Também cresci nas coxias de teatro, ouvindo Nelson Rodrigues, Durremat, O’Neill e Millôr. O Teatro me deu a noção de dramaturgia, do que é cena, drama, e do que não é. E o caminho inverso também é verdadeiro. A literatura é um grande alimento para o ator, assim como a música, mas a literatura em especial. São profissões intimamente ligadas.

Envelhecer é inevitável. A idade diminui a ansiedade, um sentimento muito presente na juventude, o que é algo positivo, você atinge a maturidade. Por outro lado, perde-se o fôlego, o ímpeto, a energia que sobre nos vinte anos. Disso eu sinto uma certa saudade.

Em Fim, seu primeiro livro, você traz personagens homens. Agora repete a opção pelo narrador masculino. Como se colocar na pele do sexo oposto lhe desafiou?

Eu costumo dizer que não tenho lugar da fala, tenho lugar do falo, e de falos sexagenários, o que é um pouco estranho. O Mario veio assim, nasceu homem, e maduro, nem pensei. Meu editor, na época, o Flávio Moura, meu um capítulo e me escreveu: “outro homem… interessante”. Só então me ative ao fato. Acho que é mais fácil me travestir, ajuda a me afastar de mim, a chegar na literatura, a não ser confessional. Sou uma atriz, o leitor conhece meu rosto, minha voz, os personagens masculinos me tornam anônima, acho que é por isso que me valho deles.

Eu sou muito sarcástica quando escrevo, muito irônica, trato mal meus heróis, gosto de me debruçar sobre suas falhas. Talvez, eu me sinta mais libre de exercer meu sadismo literário com os homens. As mulheres estão passando por um momento de afirmação, é uma hora importante, e ser ácida com uma mulher poderia ser problemático. O homem branco, hoje, é o genérico do humano equivocado, o que me atrai.

Outra semelhança entre os dois livros é que ambos trazem personagens entrando ou já vivendo a maturidade. Envelhecer ainda é um tema incômodo e tabu?

Envelhecer é inevitável. A idade diminui a ansiedade, um sentimento muito presente na juventude, o que é algo positivo, você atinge a maturidade. Por outro lado, perde-se o fôlego, o ímpeto, a energia que sobre nos vinte anos. Disso eu sinto certa saudade. Mas, talvez, a ansiedade seja fruto dessa energia extra, uma coisa depende da outra. Os quarenta anos são bem bons, o meio da vida, se tudo correr como os conformes, você já está mais maduro e ainda tem aquele “ele” da juventude. Acabei de entrar nos cinquenta, não sei ainda como será. Mas o que a idade traz mesmo, é a perspectiva da morte, da finitude, ela é o presente. Meus livros tratam muito disso, do tempo e da percepção do fim.

Na história da obra A glória e seu cortejo de horrores, você aborda temas tão reais na profissão de artistas – e de tantas outras – que é a fama e o sucesso e, então, a temida derrocada. É possível encarar isso com naturalidade?

Como diz o Tchekov, difícil é se reinventar aos 60. O mito do Sísifo é o que mais se aproxima da arte?

Você cria um livro, uma música, um personagem, rola ele montanha acima e, depois, solta, volta à estaca zero. Uma obra não garante outra, é preciso ser humilde e destemido ao mesmo tempo para recomeçar. A fama, o sucesso, a dita celebridade, são palavras horríveis, que nada têm a ver com a criação; são efeitos colaterais, assim como o fracasso. Confunde-se muito arte e fama atualmente, me recuso a encarar isso com naturalidade, me sinto ofendida, para ser sincera. O objetivo do artista não é a fama, é a comunicação.

Já ha alguns anos, você escreve crônicas para o jornal que compilam passagens triviais, mas sempre cheias de significados. Essas reflexões fazem parte do seu cotidiano?

Acho que na vida de qualquer um, mas as crônicas te tornam mais cientes delas. Ter que escrever semanalmente para um jornal ou revista te coloca em estado de alerta, de atenção para os detalhes da vida. Deus está nos detalhes, escrever crônicas te mantém atento a eles.

O teatro vive em um momento delicado no que diz respeito às leis de incentivo à cultura. Como você vê as críticas e como você acha que política e artes poderiam se relacionar de forma mais saudável no Brasil?

Existe a indústria fonográfica, a cinematográfica, a televisiva; existe o mercado de artes e o literário; o artesanato teatral e o patrimônio cultural e histórico; existem os museus e as filarmônicas, existem os parques arqueológicos; tudo isso pertence à magra pasta do Ministério da Cultura (MINC). As necessidades são muitas e diversas.

Acho que a rejeição à cultura é uma das facetas do desencanto que o Brasil teve consigo mesmo. Um país que se odeia não tem como gostar da sua própria arte. No momento, a classe é atacada até no Congresso. Nos transformamos em mamadores das tetas, sem que tenhamos conseguido avançar como indústria criativa, um potencial que o Brasil tem de sobre. Houve uma reversão impressionante.

Alguns fatores são de ordem global, como o da massificação da cultura. hoje, discutem-se os filmes de Batman, Mulher-Maravilha, Thor e Pantera Negra, com o empenho e a seriedade com que, antes, se discutia O poderoso chefãoLaranja mecânica e Morangos silvestres. Houve um grande empobrecimento, não há dúvida.

Fui assistir a remontagem do O rei da vela e sai do teatro entre extasiada e deprimida. A peça tem aquele poder que o teatro deveria ter, que eu já vi ele ter, mistura de artes plásticas com ópera, com literatura, dança, música e política. Arte total. Fiquei chocada de ver uma super produção vanguarda, embasbacada com o domínio do Zé [Zé Celso Martinez Corrêa, dramaturgo] de cena, com os cenários e figurinos do Hélio Eichbauer, com o trabalho do Borghi, dos atores, e com o texto do Oswald, que é assombrosamente inteligente, irônico, trágico e atual. Hoje, gastamos o mesmo empenho e trabalho para montar versões brasileiras de espetáculos da Broadway, que são enfadonhos até lá, no país de origem. Andamos para trás.

O Asdrúbal [Astrúdal Trouxe o Trobone, grupo teatral da década de 70] mudou a vida da minha geração, o Macunaíma, do Antunes [Antunes Filho, diretor], também; o teatro já teve esse poder de influir na opinião pública, mas, hoje, é feito pelas beiradas, com total dependência do incentivo fiscal, dividido entre a Broadway tupiniquim e um teatro mais aguerrido, experimental, de catacumba, como diz minha mãe. São Paulo ainda consegue ser plural, é possível viver de teatro em São Paulo; e Curitiba se transformou num polo importante, existem novos diretores, atores, mas nada que se compare ao Rei da Vela; a Macuinaíma e ao Paraíso Zona Norte, do Antunes; ao Trate-me Leão, a Aquela Coisa Toda e A Farra de Terra, do Asdrúbal; ou ao impacto de Carmen com Filtro e O Processo, de Gerald Thomas, na virada dos 80 para os 90.

Acho que a rejeição à cultura é uma das facetas do desencanto que o Brasil teve consigo mesmo. Um país que se odeia, não tem como gostar de sua própria arte. No momento, a classe é atacada até no Congresso. nos transformamos em mamadores das tetas, sem que tenhamos conseguido avanças como indústria criativa, um potencial que o Brasil tem de sobra. Houve uma reversão impressionante. O glória e seu cortejo de horrores narra essa história, esse descolamento, isolamento, que só tem se acirrado.

As artes plásticas igualmente passam por uma fase polêmica, trazendo a discussão sobre limites e censura. Acha que algum controle é permitido ou se tratando de arte não deve haver limitações?

As artes plásticas pareciam imunes à crise, por dependerem de um mercado de elite, calcado no circuito internacional, e contando com uma geração de talentos sólidos, como Varejão, Milhazes e Zerbini, para citar alguns. Mas ela foi tratada para o centro do furacão, ao ser atacada como pedófila e zoófila. Nem ela escapou.

A arte é sempre subjetiva, ou deveria ser, até quando é literal, mas o mundo anda muito aguerrido, muito engajado, politizado, dividido, raivoso, beato, parece que não há mais o lugar do meio, da dúvida, só vejo certezas. Não há mais lugar para a metáfora. Esse engajamento trará, acredito, avanços sociais, raciais, identitários relevantes, mas também provocará reações dos setores conservadores da sociedade, nenhum movimento acontece só de um lado. Sou a favor da classificação etária, mas acho que a arte é o lugar da liberdade, do livre pensar, tem que ser.

A arte ainda é eletista no Brasil?

Você pode dizer que, no passado, a cultura era eletista, que a opinião pública era formada por uma classe média branca, urbanam é verdade. Hoje, é possível produzir um filme até com um celular, os meios de produção baratearam, se democratizaram, você pode exibir sua obra nas redes, independente de contratos com exibidores, canais de TV ou gravadoras. Mas a probabilidade da sua obra chegar a influir na sociedade, de sair do seu gueto de gosto ou interesse é muito menor. A globalização e as novas tecnologias concentraram a riqueza e dividiram o público em nichos. Para ter um impacto mais amplo, para sair do traço da audiência, é preciso alimentar os Tamagoshis dos aplicativos, anunciar na televisão, estar em todas as janelas ao mesmo tempo; ou apelas para um conteúdo explosivo, capaz de se tornar viral. Você liga o rádio e escuta a mesma música, não importa o país em que esteja. Ouve-se Katy Perry e Anitta, que soube se mover dentro das regras do terceiro milênio. Vale a estatística, vale movimentar a massa, e que massa, uma missão para a Liga da Justiça, para Thor, Hulk e UltraMan, de resto é traço. Funciona na sua aldeia, mas não move a montanha da dita audiência. é uma mistura estranha de democratização com concentração de interesses.

A leitura também é um hábito cada vez mais raro nas novas gerações. É possível coexistir leitura e novas tecnologias?

Não sei, sou do século passado. Meu filho de 18 anos lê muito, e checa as redes, e já me mostrou uns sites maravilhosos sobre matemática e filosofia. A internet é um instrumento maravilhoso de pesquisa, o problema é, como sempre, o mau uso dela. A cultura perdeu a importância que teve no século XX, estamos mais imbecilizados, mas qualquer ser curioso, com o tempo, enche o saco do vício e acaba descobrindo o Guimarães, o Machado, Dostoiévski. A lobotomia requer um certo esforço, uma capacidade muito grande de perder tempo. Posso estar enganada, mas acho que esse deslumbre pelas redes já está esmorecendo, haverá uma guinada, há de haver.

É difícil deixar de falar de como sua criação e a família influenciaram a sua personalidade e na sua opção pelas artes. Hoje, mais madura, como você vê essa relação?

Família de Circo é um perigo. Não escapei, meu irmão também não. Aos trinta, pensei que poderia ter feito outra coisa, e comecei a escrever, que é um pouco a mesma área, sem ser.