UM CONVITE À ATITUDE FILOSÓFICA DESDE A INFÂNCIA

UM CONVITE À ATITUDE FILOSÓFICA DESDE A INFÂNCIA

Existe uma grande diferença entre “pensar pouco” e “pensar um pouco”. É com essa comparação que o filósofo Mario Sergio Cortella começa o seu convite aos pequenos leitores do livro Vamos pensar um pouco? (Cortez). Com belíssimas ilustrações de Mauricio de Sousa, o filósofo traz 35 reflexões em textos curtos, voltados para o público infantil e que abordam temas relacionados ao cotidiano, como paz, meio ambiente, amizade, família etc. Sem linguagem infantilizada, mas ao mesmo tempo acessível, instiga a inteligência e a atitude filosófica entre as crianças.

A obra, lançada em 2017, teve ótima receptividade entre o público; ao ponto de ganhar uma sequência. Vamos pensar + um pouco? traz a Turma da Mônica em novas discussões e reflexões. São 36 novos textos que vão levar as crianças a pensarem melhor sobre sua vida e, com isso, terem um senso crítico sobre a realidade. Esse é, segundo Cortella, uma das características que a filosofia desperta nas pessoas.

Em entrevista exclusiva à LER&CIA, Mario Sergio Cortella fala um pouco sobre as obras, a infância e a filosofia na vida cotidiana.

A contribuição da filosofia é extremamente formativa não só porque ela trata do tema ética, mas porque, em cima desse tema, ela é capaz de indagar sobre outras coisas que estão em nosso entorno e que as crianças e jovens também precisam se ocupar.

LER&CIA | Faz pouco tempo que a filosofia tem entrado no cotidiano. Você acredita que é mais fácil introduzir o pensamento filosófico na atitude dos adultos ou das crianças?

MARIO SERGIO CORTELLA | São dois movimentos diferentes porque as crianças, em si, já têm uma reflexão filosófica, quase de base, em relação ao porquê das coisas. É muito usual uma criança de quatro, cinco ou seis anos ficar o tempo todo perguntando: por que, por que, por quê? Aliás, o compositor Renato Russo, de maneira muito bonita na música “Pais e filhos”, brincou com isso: “por que o céu é azul” etc. Então, as crianças têm essa atitude filosófica com maior espontaneidade. Por isso, é muito mais fácil fazer a entrada por essa porta, onde já se tem essa preocupação. Com os adultos, as perguntas sobre os porquês parecem muito mais práticas. Nesse sentido, a gente tem conseguido muito mais uma presença que chega aos adultos por intermédio das crianças ou do jovem, do que o contrário.

Esse caminho também acontece com os seus livros infantis sobre filosofia?

Tem sido usual em relação a essa coleção [Vamos pensar um pouco], o pai ou a mãe compram ou vão ler para o filho e acabam dando um passo para outros livros de filosofia a partir desse.

Como surgiu a ideia de firmar uma parceria com Mauricio de Sousa para publicação de livros sobre filosofia para crianças?

Estivemos na Bienal de 2016, nós – Mauricio de Sousa e eu –, nos encontramos na sala de imprensa, nos abraçamos, conversamos e ele me disse: “nós devíamos fazer um livro juntos. Eu faço as ilustrações e você faz os textos”. E a ideia surgiu. Eu procurei a editora Cortez, com quem eu já tinha um livro de filosofia para crianças, chamado O que é a pergunta?, e desenvolvemos o projeto. No primeiro volume nós fizemos 35 reflexões totalmente ilustradas e com textos meus.

A sabedoria não está em saber algo apenas e ali repousar, mas em procurar crescer, ir além de si, ampliar o próprio horizonte.”
(Trecho de Vamos pensar um pouco?)

E o título é um convite ao pensamento filosófico, certo?

O título – Vamos pensar um pouco? – surgiu de uma ideia importante, que já aparece na abertura do livro, é um convite para evitar “pensar pouco”. Algo que eu sempre gostei, e o Mauricio mais ainda, é a ideia de pensar em turma. Quando a gente pensa em turma, a gente pensa melhor. Tendo ele uma turma da Mônica, ficou mais facilitado colocar isso em livro.

Como foi a receptividade do público ao livro?

O primeiro volume, Vamos pensar um pouco?, fez um sucesso muito bom para nós e houve, então, uma demanda por um segundo volume. E nós o fizemos: Vamos pensar + um pouco?. A gente ainda não tem um terceiro pronto, mas seria bom tê-lo e talvez chamado – não é um título definido ainda – Vamos pensar mais ainda? Enfim, tornamos realidade essa ideia que surgiu por uma boa coincidência na Bienal do Livro. O Mauricio ainda tem uma particularidade importante: ele costuma reunir milhares de pessoas em uma situação muito curiosa que é ter gente de todas as idades. Eu sou avô, eu comecei lendo Mauricio de Sousa em 1959 no jornal. Meus filhos liam, meus netos leem, portanto ele mobiliza muita gente.

Você acredita que esses livros seriam muito diferentes se tivesse sido escrito para crianças de 20 anos atrás?

Sim, eles seriam diferentes porque as crianças daquele momento não tinham a nossa tecnologia, nosso mundo digital. Essa criança teria – não menos interesse –, mas teria menos acesso a algumas das reflexões que aparecem nos livros; temas com os quais há mais contato até mesmo por conta da difusão informacional mais expressiva que temos hoje. Não diria que seria pior, mas seria de fato diferente. Afinal de contas, em 1998, havia uma série de situações distintas. Hoje, as crianças podem ter acesso à Turma da Mônica em diversas plataformas – na TV, mobile etc. Em 98, estava começando no Brasil o uso da TV a cabo, mundo digital não era presente, a internet era discada. Hoje a criança tem a possibilidade de visitar alguns lugares, em que esses conteúdos também circulam, com maior expansão do que se tinha há 20 anos.

Como você avalia a reflexão filosófica nas escolas?

Ela é muito importante. No ensino fundamental, não precisa haver uma disciplina chamada Filosofia, mas a atitude filosófica tem que aparecer como conteúdo dentro da Língua Portuguesa, Matemática, História etc. Já no ensino médio, é necessário, sim, que se tenha uma disciplina com esse nome, para que ela carregue não somente os temas os quais a filosofia aborda, mas também uma conceituação mais nítida do que é a filosofia, as metodologias utilizadas e alguma noção sobre a sua história. No ensino fundamental, seria mais temático; no ensino médio, seria mais metódico. Por isso, são duas presenças diferenciadas, mas necessárias.

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A ideia da parceria entre Cortella e Mauricio de Sousa partiu do desenhista, em 2016, na Bienal do Livro.

Como a prática do pensamento filosófico na infância pode contribuir para a formação do caráter do indivíduo e influenciar o cotidiano de sua vida adulta?

A filosofia tem uma tarefa muito importante – que não é só dela, mas que é especialmente dela – que é nos fazer refletir sobre por que fazemos o que fazemos. Isto é, nos indagar sobre as coisas que estão à nossa volta para dificultar que a gente tenha uma vida alienada, com ausência de consciência e deliberação. Por isso, a atitude filosófica – ao fazer as reflexões e indagações – auxilia que uma pessoa tenha mais autonomia, seja mais emancipada e, ao mesmo tempo, tenha um exercício mais crítico de sua própria liberdade. Nesse sentido, a contribuição da filosofia é extremamente formativa não só porque ela trata do tema “ética”, mas porque, em cima desse tema, ela é capaz de indagar sobre outras coisas que estão em nosso entorno e que as crianças e jovens também precisam se ocupar.

CONHEÇA UM POUCO DAS REFLEXÕES DOS LIVROS SOBRE:

MEIO AMBIENTE

Por isso, num futuro a ser cuidado, a ecologia tem de ser um desejo concreto de ação: cuidar da nossa casa. E que casa é essa? Nosso ambiente,
nossa cidade, nosso país, nosso planeta. Aquilo que nos abriga, que faz que nós tenhamos condições de viver.

(Vamos pensar um pouco? – p. 36)

RESILIÊNCIA

Como se comprova que o ouro de fato é autêntico? Ao se observar o que sobra após testar sua resistência à alta temperatura. Comparativamente, alguém mostra que é forte quando tem de encarar adversidades, as contrariedades, as pressões.

(Vamos pensar + um pouco? – p. 38)

IDENTIDADE E VIDA EM SOCIEDADE

Eu sou como eu acho que devo ser, e isso é bom quando aquilo que eu acho que devo ser é bom não apenas para mim, mas para os outros que vivem ao meu redor, para a vida coletiva.

(Vamos pensar + um pouco? – p. 12)

COMUNICAÇÃO

Quem deseja expressar inteligência precisa ter a capacidade de se fazer entender, de ser inteligível.

(Vamos pensar + um pouco? – p. 16)

CONTENTAMENTO E GRATIDÃO

Vale, sim, desenvolvendo a capacidade de, observando o que nos falta, valorizar aquilo que já temos. Isso se aplica ao afeto, ao trabalho, à amizade e à nossa convivência no dia a dia.

(Vamos pensa um pouco? – p. 38)

VAMOS PENSAR COM A TURMA DA MÔNICA?

vamos pensar um pouco capa

VAMOS PENSAR UM POUCO?
Cortez

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VAMOS PENSAR + UM POUCO?
Cortez