TODA MATURIDADE LITERÁRIA DE TEZZA

TODA MATURIDADE LITERÁRIA DE TEZZA

Um dos escritores mais representativos da produção literária de Curitiba, Cristovão Tezza consolidou seu nome na literatura nacional e internacional com o sucesso de O filho eterno, em 2007 – uma obra autobiográfica que conta sua relação com seu filho, que tem Síndrome de Down. O livro ganhou tradução para outros idiomas, como inglês, espanhol, chinês e catalão, e foi lançado em mais de 10 países.

POR ROBERTA BRAGA

Sua vida literária começou ainda na adolescência e seguiu um caminho de experimentações e novas possibilidades desde então. Romancista, contista, poeta, cronista, colunista e ensaísta, para Tezza, escrever é algo além dos gêneros. “É um processo de investigação de mim mesmo e dos outros. Passei tanto tempo escrevendo na vida, que a escrita acabou me fazendo – é nela que eu me reconheço.” A cidade de Curitiba, que entrou na vida do escritor aos oito anos, quando mudou de Santa Catarina, sempre esteve presente, criando um vínculo forte e afetivo com o público curitibano. Seu primeiro livro de contos foi lançado em 1979, mas foi em 1988, com a obra Trapo, que começou a ser conhecido no meio literário. Com quase 40 anos de produção, foram mais de 20 obras lançadas, centenas de crônicas publicadas, dezenas de prêmios recebidos no Brasil e no mundo, algumas adaptações de sucesso de suas obras para o teatro e para o cinema e a promessa de uma vasta produção ainda por vir. A tirania do amor é seu livro mais recente e conta a história de um homem de meia-idade que se vê em uma crise na vida pessoal e no trabalho e passa a travar uma batalha pautada pela racionalidade. Em entrevista exclusiva à LER&CIA, Tezza relembra suas experiências da juventude, o começo da sua carreira, fala sobre a relação entre paternidade e escrita e avalia seu momento atual na literatura, que define como uma “arte de maturação lenta”.

A história de um escritor é sempre a história da conquista de sua própria linguagem e de seu olhar único sobre o mundo, o que não é simples.

 

LER&CIA | Na sua juventude, você acumulou experiências diversas, como trabalhar em teatro, tentar ser piloto, estudar fora, trabalhar na Alemanha e abrir seu próprio negócio: uma relojoaria. Esse era um Tezza ainda tentando encontrar sua vocação?

Cristovão Tezza | Quando acabei o Ensino Médio, em 1970, eu já me sentia plenamente um “escritor”, embora nada tivesse escrito ainda de relevante. Era uma ideia imersa no espírito daqueles anos: escrever era antes de tudo um gesto existencial, um modo radical de ser. Recusei a universidade e tentei ser piloto da Marinha Mercante, participei de comunidade de teatro, abri uma oficina de consertos de relógios, e viajei para a Europa, só com a passagem da ida – naqueles tempos inocentes, isso ainda era possível. Me fixei em Portugal e durante um tempo lavei pratos na Alemanha. Mais de um ano depois, voltei ao Brasil e finalmente fiz vestibular para Letras. E acabei enveredando pela vida acadêmica. Em qualquer caso, a vocação sempre foi a literatura; o resto era a pura busca da sobrevivência. Alguma coisa que me desse estabilidade para escrever, o que acabei enfim encontrando na universidade.

Quando a escrita o encontrou ou quando você se encontrou na escrita?

Escrevi minhas primeiras poesias aos 13 anos, imitando os versos de uma coleção de poetas românticos que havia em casa, que eu não cansava de ler: Castro Alves, Álvares de Azevedo, Fagundes Varella, Gonçalves Dias. E não parei mais.

Por mais de 20 anos, dedicou-se ao trabalho de professor, lecionando Língua Portuguesa. Olhando para trás, como isso impactou sua percepção da vida acadêmica, dos jovens e da própria língua?

Eu gosto de fantasiar que a vida acadêmica não influenciou em nada minha vida de escritor, mas é claro que isso não pode ser verdade. Ninguém passa duas décadas num trabalho regular sem ser afetado pelo que faz. Antes de mais nada, a universidade me “centrou” a cabeça, por assim dizer, me deu calma, rotina e segurança para escrever. Também tive o bom senso de dar aulas de Língua Portuguesa, e não de Literatura, o que criaria um envolvimento forte demais para mim, misturando a perspectiva didática com a perspectiva da criação. São coisas distintas. Preferi deixar a Literatura no “quarto escuro” da cabeça. Mas sempre gostei muito de dar aulas de Língua Portuguesa, inclusive produzindo livros a partir da sala de aula, como a Oficina de texto e a prática de texto, em parceria com Carlos Alberto Faraco, que foi meu grande mentor na área de Linguística. Vendo de outro aspecto, todos os anos convivi com jovens (só eu envelhecia!), o que é uma dádiva para o ouvido de quem escreve. Você está sempre se atualizando.

Mais tarde, você decidiu dedicar-se, integralmente, a escrever. O escritor precisa dessa exclusividade de tempo e dedicação?

A “dedicação exclusiva” à literatura aconteceu em outro momento, por uma confluência de acasos e um pouco de sorte. O sucesso inesperado de O filho eterno, em 2007, acabou me colocando numa sinuca existencial. Abriu-se um caminho maravilhoso para eu mergulhar nos meus projetos literários, mas eu teria de sair da universidade. Não dava mais para conciliar as duas coisas, a não ser que eu virasse um professor relapso, pedindo uma licença atrás da outra e empurrando a vida acadêmica com a barriga… E faltavam ainda dez anos para eu me aposentar. Por outro lado, o meu projeto acadêmico, depois do doutorado, já estava de fato esgotado, assim como minha experiência de sala de aula. Era hora de mudar. Não me arrependo. Sobre a exclusividade de tempo e dedicação à literatura, ela é ótima, mas nem sempre é viável. Até uma certa idade, dá para fazer tudo ao mesmo tempo que a gente aguenta o tranco, por assim dizer. Mas depois vai ficando mais difícil.

Analisando seu conjunto de obras, temos uma variedade de gêneros: ensaios, romances, poesia, contos e crônicas. Um escritor é sempre multifuncional nesse sentido? Você se vê assim?

Depois de uma juventude que foi “puro instinto”, no melhor estilo anos 60, a universidade acabou despertando meu lado racional e centrado. Ao lado da ficção, que nunca me abandonou, comecei a ler e escrever sobre linguagem e teoria literária, no simples embalo acadêmico – fiz mestrado e doutorado. E passei a ser convidado a escrever resenhas em jornais e revistas, o que foi burilando meu olhar “de fora” para a literatura. Mais tarde, a Gazeta do Povo me convidou para ser cronista, e assinei uma coluna semanal durante mais de cinco anos. Foi outra experiência diferente. E sempre sou convidado para eventos literários, para dar conferências, falar sobre literatura. E há pouco tempo passei a assinar uma coluna quinzenal na Folha de S.Paulo sobre temas culturais. Enfim, acabei virando este ser “multifuncional”, como você definiu, muito por força da simples sobrevivência como escritor, principalmente depois que saí da universidade.

Você já declarou que é o “sentimento de inadequação” que leva uma pessoa a escrever. É possível amenizar essa sensação quando coloca os textos no papel (ou na tela) ou quando vê o sucesso de suas obras publicadas?

Eu sempre brinco dizendo que pessoas felizes não escrevem; os felizes vão ao cinema, brincam, namoram, se dão bem com a família, leem livros, viajam tranquilos, dormem bem. Os infelizes se trancam para escrever o que ninguém pediu, e passam dias, meses, anos, neste trabalho insano e sem nenhuma garantia de nada. Claro, é uma brincadeira que faço, mas tem seu fundo de verdade. A simples vaidade (que sempre existe em quem faz arte) é muito pouco para produzir literatura; é preciso alguma coisa a mais. No meu caso, escrever passou a ser não um modo de desabafar ou de dizer verdades (como os leigos em geral imaginam o ato de escrever), mas um processo de investigação de mim mesmo e dos outros. Passei tanto tempo escrevendo na vida, que a escrita acabou me fazendo – é nela que eu me reconheço. Eu acho que o sentimento de inadequação, pelo menos um fio dela, com mais ou menos intensidade em diferentes momentos, é parte integrante da vida de todos.

Eu sempre brinco dizendo que pessoas felizes não escrevem; os felizes vão ao cinema, brincam, namoram, se dão bem com a família, leem livros, viajam tranquilos, dormem bem.

O livro O filho eterno foi um marco na sua obra e também no alcance da sua literatura. Você se sentiu pressionado de alguma forma a tentar buscar esse mesmo resultado com as obras seguintes?

Com toda a simplicidade: não, de modo algum. Antes mesmo de ele ser publicado eu já estava pensando no próximo livro, Um erro emocional. Que, aliás, foi bastante diferente de O filho eterno. Na verdade, O filho eterno abriu caminhos literários formais para mim, aprofundou aspectos da minha linguagem. Mas nunca me senti pressionado em função do sucesso. Eu sempre soube que aquele era um livro único, pelo radicalismo do tema e apelo autobiográfico. Eu simplesmente fui adiante. Acho que meus romances O professor e A tirania do amor são obras tecnicamente melhores do que O filho eterno.

Ainda no tema O filho eterno, a obra mostra um pouco da sua relação com seu filho. Você já declarou também que por ter perdido seu pai muito cedo, separou sua vida em antes e depois desse momento. Como é para você essa relação de paternidade? É algo que você busque entender também pela escrita? 

Não objetivamente, mas é claro que a paternidade é um tema fundamental na literatura. Aliás, na história da literatura, desde sempre. Tenho um outro texto autobiográfico, que escrevi nos anos 70, um conto do livro A cidade inventada, minha primeira publicação. Chama-se A primeira noite de liberdade, e conta a história de uma criança no dia da morte do pai, o que o menino não chega a assimilar perfeitamente. Lembro de uma frase deste conto: “Até achar meu pai, estava livre”. A liberdade soava como uma espécie de condenação. Pois bem, muitos anos depois, o nascimento do filho representa justamente o contrário: a perda da liberdade. Porque um filho cria um imperativo ético inescapável. Para mim, eis um tema que só a literatura pode tratar com densidade, justamente por criar toda a difícil ambivalência dos nossos sentimentos.

Recentemente, você lançou o livro de poesias Eu, prosador, me confesso, que trouxe uma coletânea do que escreveu por cinco anos nesse estilo. Acha que ainda existe espaço para o gênero?

A poesia jamais saiu de cena. De tempos em tempos, os profetas gritam que “o romance morreu”. Mas jamais alguém saiu dizendo que a poesia acabou. Bem, do ponto de vista prático, a poesia é um objeto comercialmente complicado. Poesia vende pouco, e embora se produza aos milhões, é muito pouco lida. Em boa parte, ela foi assimilada no século 20 pela música popular Chico e Caetano, por exemplo, são poetas maravilhosos. Mas ela continua sendo sempre uma expressão obrigatória da vida cotidiana – todo mundo, em algum momento, faz poesia. É por isso que ela é tão difícil. E aí é que está a sua graça.

A cidade de Curitiba, por toda a contribuição do Leminski, é uma cidade mais aberta a esse estilo literário?

Curitiba é uma cidade literária, em todos os sentidos. Leminski marcou simbolicamente a poesia da cidade, assim como Dalton já havia marcado a nossa prosa desde os anos 60. É cidade de todos os gêneros.

Cristovão Tezza

…os valores da literatura e da arte da ficção são poderosos demais para serem esquecidos. A literatura permanece como nossa necessária reserva de silêncio e humanidade. Não consigo imaginar um mundo sem o contraponto da ficção.

Falando de outro lançamento recente seu, a obra A tirania do amor, traz um homem maduro, com problemas no casamento, no trabalho e em sua própria ética – temas bem cotidianos. Contada pelo narrador em terceira pes
soa com interrupções do personagem em um tempo não linear, traz uma narrativa complexa do ponto de vista de recursos literários. Você vê hoje sua prosa mais madura e com um estilo mais característico?

Bem, a literatura é uma arte de maturação lenta, e em duas direções, ainda que entrelaçadas uma com a outra. Uma é técnica: nossa linguagem vai mudando com o tempo, a estrutura da frase; e a cabeça também, a visão de mundo. O olhar de alguém de 30 anos tem uma substância diferente do olhar aos 60 – e
isso afeta a linguagem, a estrutura do texto, o sentimento existencial. A história de um escritor é sempre a história da conquista de sua própria linguagem e de seu olhar único sobre o mundo, o que não é simples. Naturalmente, sou suspeito para avaliar, mas acho que acabei criando uma marca pessoal bastante visível na minha prosa. De qualquer forma, relendo um romance como Trapo (o que fiz há pouco – em breve sai pela Record a edição comemorativa dos 30 anos da primeira edição), vejo que eu já estava inteiro ali, talvez numa versão mais otimista.

Temos visto mudanças em todas as áreas nas últimas décadas – e na literatura e no mercado literário isso não é diferente. Consegue fazer alguma “previsão” do futuro da literatura para as próximas décadas?

A literatura vem perdendo terreno desde o século 19, quando foi de fato a arena ficcional de tudo que havia de ideologicamente importante no mundo, da filosofia aos projetos sociais, da psicologia às questões da fé. No século 20, o advento do cinema deu outra dimensão à literatura, menos visível, mas igualmente relevante. Agora, no século 21, a chegada da internet e todo o seu pacote explosivo de novidades digitais praticamente acabou relegando a literatura quase que a um nicho de mercado, uma “arte especializada”. Estamos ainda no meio do furacão da mudança, por assim dizer – é difícil saber quais serão as consequências culturais da revolução digital que estamos vivendo. De qualquer forma, os valores da literatura e da arte da ficção são poderosos demais para serem esquecidos. A literatura permanece como nossa necessária reserva de silêncio e humanidade. Não consigo imaginar um mundo sem o contraponto da ficção.

PARA LER

O FILHO ETERNO
Record

A TIRANIA DO AMOR
Todavia