SE DIZEM OS DADOS...

SE DIZEM OS DADOS...

Em 2018, o Grupo Livrarias Curitiba realizou mais uma edição do seu tradicional Concurso de Contos. Ao todo, foram mais de mil contos inscritos por escritores de todo o país. Entre eles, foram selecionados seis ganhadores. Confira o conto Se dizem os dados, de Vinícius Machado Vieira, da cidade do Rio de Janeiro (RJ).

SE DIZEM OS DADOS…

— Bom dia, senhor! — a voz que assombrava seus sonhos o acordou — Uma manhã nublada, lamento informar.

Enzo mirou por entre as pálpebras inchadas a tela do celular na mesa de cabeceira. Sete horas, como sempre.

— Eu não havia dito que hoje queria levantar às sete e quinze? — perguntou, irritado.

— Não seria correto, senhor — o despertador respondeu.

— Malditos algoritmos preditivos… — resmungou Enzo, arrastando-se para fora da cama.

Ao abrir o armário, uma camisa social branca, calças jeans, meias pretas e um par de sapatênis de couro vegetal o aguardavam.

— Suponho que eu seja voto vencido nisso também.

— De modo algum, senhor — defendeu-se o armário — Nós apenas realizamos os seus desejos, conforme…

— Sei, sei — Enzo pôs-se a vestir a roupa, suspirando — Conforme dizem os dados.

Deixando o quarto, se dirigiu ao banheiro.  Lá, encontrou a paz — cansado de ouvir os conselhos da latrina sobre o horário ótimo para visitá-la, Enzo optara por programá-la para que silenciasse em sua presença. Mesmo assim, em sua cabeça, as descargas soavam como burburinhos de aprovação. Além do mais, tinha certeza que o vaso continuava desrespeitando sua privacidade, pois, embora lhe faltassem provas, jurava que o falastrão conversava frequentemente com o filtro sobre a regularidade com que Enzo esvaziava a bexiga.

O alarme da geladeira disparou na cozinha, para apressá-lo. Após Enzo enfim abandonar o refúgio silencioso do banheiro e abrir a porta do aparelho refrigerador, os insistentes ruídos cessaram.

— Você está… — a geladeira começou.

— Sei, sei. Atrasado.

— Tendendo a se atrasar, na verdade — o utensílio o corrigiu

— Tomei a liberdade de preparar sua vitamina.

— Vitamina? Hoje eu acordei com vontade de cereal.

— Impossível.

— Você está me chamando de mentiroso?!

— Bom, os dados é que não mentem… — a geladeira sentenciou.

Que audácia dessa atrevida!, Enzo pensou. Ele bebeu dois goles da vitamina e despejou o restante no interior da geladeira.

— Limpe essa sujeira, sua máquina de quinta categoria. Enquanto batia os pés para fora do apartamento, escutou a réplica do utensílio: — Eu
não vou me esquecer disso! Já está no seu perfil!

O elevador não emitiu sequer uma palavra depois de cumprimentá- lo com um “Bom dia!” constrangido; porém, Enzo sabia que aquela engenhoca — de natureza introvertida, mas perspicaz — registrava tudo: nenhum detalhe escapava das lentes de suas câmeras.

Assim que saiu para a garagem, o carro ligou. — Vamos, senhor! — o automóvel instigou-o — Temos que recuperar os segundos perdidos.

Enzo retardou as passadas de propósito. Ao largar-se no acento principal, o carro deu partida, e o sistema de som iniciou um funk clássico. — Essa não é a música certa — Enzo protestou.

— Permita-me discordar, senhor — disse o veículo — Fomos notificados sobre o seu humor atual.

— A geladeira me dedurou?

— Bom, antes mesmo do incidente na cozinha, a…

— Sei, sei — Enzo inspirou fundo e cerrou os olhos — Aquela privada fofoqueira dos infernos!