LEANDRO KARNAL, HISTORIADOR

LEANDRO KARNAL, HISTORIADOR

As redes sociais se tornaram uma vitrine de manifestações de ódio, comentários raivosos e discursos de intolerância. Ao mesmo tempo, antagonicamente, procura-se a paz em todos os lugares. Leandro Karnal e Monja Coen apontam, no livro O inferno somos nós: Do ódio à cultura de paz, um caminho que parte da autoavaliação e que tem como objetivo a mudança interior e também na sociedade. Em entrevista exclusiva à LER&CIA, o historiador e escritor fala sobre o tema.

LER&CIA | Como surgiu o livro O inferno somos nós: Do ódio à cultura de paz?

Leandro Karnal | A Papirus criou uma prática muito interessante: gravar debates entre pessoas e depois transcrever e transformar em livro. Acho a ideia boa porque a conversa mantém a vivacidade, certa coloquialidade e, mesmo depois de revisar os excessos da oralidade, apresenta um ritmo mais rápido e agradável do que o texto pensado para ser escrito. Assim, como eu conheço a Monja Coen há dez anos, foi fácil fazer o debate e produzir o livro.

O ódio, infelizmente, é algo latente no ser humano, como podemos atestar em tantos episódios dramáticos da história mundial. Você acredita que isso é mais intenso nos dias atuais por causa da liberdade de expressão e facilidade de propagação de ideias e opiniões?

O ódio não é novo. Como a questão indica, é latente. Os grandes genocídios do século passado (Namíbia, armênios, judeus, tutsis, ciganos e tantos outros) não necessitaram de internet. As redes sociais colocaram odiadores (haters) em contato entre si e com seus alvos. A rede deu visibilidade e canalizou o ódio dentro de cada comunidade imaginada. A internet não inventou nossa violência, apenas deu visibilidade. Pensando de forma mais radical, é possível que tenha até atenuado a violência real que sempre existiu: ao transferir o ódio para textos, memes e carinhas, talvez ajude a diminuir a pressão do ódio real. Da mesma forma, ao exibir a felicidade e as posses reais ou imaginadas de tantos, pode estimular o ressentimento que leva à violência. Tudo contém o seu contrário. Exemplo concreto: Chico Buarque sempre foi amado ao vivo como é até hoje, mas descobriu o ódio só na internet e em um episódio de rua. Eu tenho haters aos quilos na internet, mas nenhum real diante de mim.

As manifestações de ódio têm sido cada vez mais baseadas em argumentos com aparência de virtude e lógica. Há, obviamente, o ódio gratuito, mas também muitas expressões sob máscaras de boas motivações. Como desmascarar esses “lobos em pele de cordeiro”?

Bem lembrado! Ho- je aumentou o ódio em nome do bem. Claro que toda violência sempre invocou bons princípios. Um fanático nazista acreditava realmente que o mundo seria melhor sem judeus, homossexuais, comunistas ou Testemunhas de Jeová. Sob o amparo da boa intenção pode-se encobrir nosso “dark side” com mais facilidade. É como na história do Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: o lado podre fica no sótão e nós continuamos mostrando ao mundo que apenas queremos o bem absoluto. Fazer o mal em nome do bem e localizar o ódio apenas no grupo rival é, hoje, uma tendência dominante. Há uma parte específica dos odiadores que acredita que se eliminássemos todos os “petralhas” do Brasil estaríamos muito melhor; da mesma forma que há muitos que imaginam a eliminação de todos os “coxinhas”. Sentimento que imagina a eliminação do adversário nunca é boa intenção ou ético, é apenas ódio, ressentimento, dor, problema sexual denegado ou medo.

Como é possível fazer a transição do cenário de ódio para uma cultura de paz efetiva na sociedade atual?

Começa como o título do livro e parte da nossa reflexão: localizar o ódio em nós. O ódio não se concentra totalmente na torcida adversária. O ódio é um sentimento que, em geral, necessita de uma resposta de ódio. Localizando em nós, podemos desarmar melhor o gatilho. Conhecer-se ajuda a não mirar só no outro como uma compensação pelas minhas dores. A Monja acredita muito no consenso, no diálogo e na meditação. Eu acredito em tudo isto, mas enfatizo também a coerção: é preciso ter leis e punições a pessoas que manifestam não apenas uma divergência, mas um crime como o racismo. Quando entramos no crime, não podemos ter relativismo moral. Racista é criminoso e deve ser punido juridicamente. Ao mesmo tempo, precisamos de educação e campanhas para demonstrar o absurdo do racismo.

O acesso a múltiplas opiniões através das redes sociais ajuda a despertar muito facilmente sentimentos de indignação e revolta. É necessária uma contínua autoavaliação para não entrar em um processo de ódio todos os dias?

Como eu já disse, em geral, o veneno precisa ser tomado para funcionar. Se algo provoca meu ódio, tocou em um ponto delicado, provavelmente uma faceta incômoda em mim. Posso discordar sem me alterar. Posso dizer que penso diferente de forma clara, sem mudar a voz ou despertar meu instinto físico de violência. Quando algo me “tira do sério”, há uma chance enorme de ser algo muito distinto do que parece ser. Como nas ruas das cidades, não estamos discutindo a correta interpretação do Código Nacional de Trânsito, mas o instinto tribal e primitivo de demarcação de espaços de caça e da afirmação de machos alfa (que podem ser mulheres também). No trânsito, estamos sempre deslocando frustrações e dores que são nossas e esperando um problema para conseguir aliviar nossa dor e transferir para a disputa da rua.

Como é sua relação com a Monja Coen? Como você avalia a influência que ela tem tido na sociedade e sua contribuição para a implantação de uma cultura de paz?

A Monja é minha conhecida há uma década. Sempre li seus textos, assisti a muitas palestras e a admiro muito. Uma parte do meu encantamento é pelo conhecimento dela, pelas práticas meditativas, por estar inteira nos lugares e por ser quem ela é. A outra parte é mais sutil e igualmente importante: ela quebra a ideia do monge levitando em incenso e de serenidade pétrea sobre um campo de lótus. A Monja é um ser humano com opiniões políticas (aliás, diversas das minhas) e que nunca se apresenta como a politicamente correta, mas como a pessoa integral. Ela tem a inteireza que valorizo: une o momento com a consciência, ou seja, sempre esta onde está. Admiro a Monja Coen também nos gestos humanos e subjetivos dela. Seria difícil conviver com uma pessoa santa. É muito bom conviver com uma mulher perfectível e não perfeita, que luta pela sabedoria e pelo crescimento. Acho que ela é querida no Brasil todo e fora por isto: não nos apresenta um ideal de mármore, mas uma face humana e compassiva com os outros humanos, nunca arrogante e nunca portadora da verdade absoluta.

CONHEÇA A OBRA

O Inferno Somos Nós – Do ódio à cultura de paz
Monja Coen/Leandro Karnal Papirus