CONTANDO A HISTÓRIA DOS SANTOS

CONTANDO A HISTÓRIA DOS SANTOS

Ainda que da formação católica, Rodrigo Alvarez não se considera uma pessoa religiosa. Mesmo assim, tornou-se conhecido e alcançou listas de best-sellers com os livros que escreveu sobre duas personagens relacionadas à fé cristã: Aparecida e Maria. Agora, lança a obra que considerou a mais desafiadora: Jesus, o homem mais amado da história.

O lançamento foi considerado pelo autor a obra mais desafiadora de temática religiosa-que, por si só, já é um assunto delicado. “No universo religioso, ainda mais com tantas divisões dentro do cristianismo, você ter uma posição dentro do cristianismo,  você ter uma posição contrária à posição dominante, ou simplesmente revelar fatos históricos controvertidos, pode levar algumas pessoas a reações (verbais) violentas.  Eu não esperava ver um consenso, mas não queria um livro sensacionalista que mexesse com algo que respeito muito, que é a fé das pessoas”.

Para a nova obra, o escritor – que também é jornalista – viveu três anos em Jerusalém, andou pelos mesmos locais percorridos por Jesus e baseou suas pesquisas em textos sagrados, manuscritos históricos e outras fontes de informações menos conhecidas. O livro traz uma luz sobre a vida de Jesus, sua influência inegável na história e um novo olhar mesmo sobre fatos já conhecidos da sua caminhada na terra. Fruto de muita pesquisa e dedicação, a obra é dedicada, segundo o autor, a todos os leitores – cristãos ou não – e tem o objetivo de ser um livro em que as pessoas possam confiar e se inspirar.

LER&CIA | Como sua carreira de jornalista o preparou para se tornar um escritor?

Rodrigo Alvarez | Quando eu tinha dezenove anos, no momento em que desisti da carreira de desenhista industrial (eu era péssimo), decidi que seria escritor. Naquela época, eu tinha escrito muitos contos, poesias e letras eram meu lugar de conforto, meu grande prazer e aquilo que me instigava. Mas então pensei: como chego até lá? Conclui que o jornalismo era o melhor caminho. Eu precisava conhecer o mundo para ter o que escrever. Eu precisava me fazer adulto, conhecer pessoas, sofrer, viver alegrias, ter medo, me colocar na pele dos outros…  Só vivendo eu poderia escrever. E assim aconteceu. Depois de 13 anos como jornalista, em 2009, escrevi meu primeiro livro (No país de Obama, Nova Fronteira). Mas ainda não era aquilo… eu não queria ser escritor de memórias de um jornalista. Eu queria escrever literatura. Então, em 2014 veio a primeira experiência com a não-ficção literárias, no livro Aparecida (editora Leya, 3º edição). O Livro foi muito bem recebido e eu me senti à vontade para continuar na temática. Jesus, o homem mais amado da história, a meu ver, é o auge desse processo, não só pelo personagem, que de fato é o mais importante, mas pela própria escrita, que agora chegou ao ponto que eu sonhava quando comecei. Mas, a verdade seja dita, enquanto estou lançando este livro, já estou chegando à página 100 do meu próximo livro, que será minha primeira obra de ficção.

Jesus, o homem mais amado da história, a meu ver, é o auge desse processo, não só pelo personagem, que de fato é o mais importante, mas pela própria escrita, que agora  chegou ao ponto que eu sonhava quando comecei.

Dos seus trabalhos jornalísticos, quais foram os momentos profissionais mais marcantes?

O primeiro episódio marcante foi quando testemunhei o naufrágio de uma plataforma em alto-mar. Poucas pessoas viram a P36 da Petrobras afundar e só uma câmera registrou. Naquele dia, em 2001, começou de fato minha carreira (ainda que eu trabalhasse com jornalismo desde 1996). Outros episódios marcantes: as eleições que fizeram de Obama o primeiro presidente negro dos Estados Unidos; o terremoto do Haiti (tema do meu segundo livro, Haiti – Depois do inferno); a procura por tornados no meio-oeste americano; a guerra de Gaza em 2014 , quando minha vida ficou em risco algumas vezes; recentemente a crise dos refugiados. Acompanhei por muito tempo o drama das famílias de refugiados, especialmente as que vinham da Síria. Fiz com eles o trajeto entre o Oriente Médio e a Alemanha que os recebia de braços abertos.

Como você passou a escrever sobre temas do universo religioso?

Comecei a pesquisa em 2011, quando quis escrever sobre um fenômeno religioso brasileiro, mas não pelo ponto de vista religioso e, sim, cultural. Ao escrever Aparecida eu tive a oportunidade de contar uma parte desconhecida da história do Brasil. Costumo dizer que Maria, o meu segundo livro de temática religiosa, é uma costela arrancada de Aparecida. Eu pretendia fazer alguns capítulos contando a biografia de Maria (afinal Aparecida, sendo Nossa Senhora, é uma representação de Maria), mas percebi que era pouco, e decidi dedicar um livro inteiro a contar aquela história tão importante e ao mesmo tempo desconhecida.

O pensamento dele [Jesus], ou o pensamento que ele aprendeu, reformulou e ensinou, redefiniu a maneira como nos comportamos diante dos outros seres humanos. Não há ninguém que possa discordar que foi o homem mais importante da História.

Apesar dos temas, seus livros não são de conho confessional ou evangelístico. É complicado – mais do que outros assuntos – falar sobre religião e ícones religiosos mantendo a imparcialidade jornalística? Quais foram os desafios nesse aspecto?

O desafio maior foi acreditar que eu poderia escrever aquilo que eu pensava que deveria ser escrito sem medo de ser apedrejado por isso. Explico: no universo religioso, ainda mais com tantas divisões dentro do cristianismo, você ter uma posição contrária à posição dominante, ou simplesmente revelar fatos históricos controvertidos, pode levar algumas pessoas a reações (verbais) violentas. Eu não esperava ser um consenso, mas não queria um livro sensacionalista que mexesse com algo que respeito muito, que é a fé das pessoas. O desafio então foi não me preocupar com opiniões divergentes para fazer o que eu acreditava e continuo acreditando: livros com narrativa envolvente e informações precisa (checadas e “rechecadas” tantas vezes que minha cabeça até esquenta) e ao mesmo tempo capazes de levar as pessoas a reflexões que elas não teriam se ficassem apenas ouvindo aquilo que sempre ouviram na escola, na igreja ou em livros que não comungam desses mesmos valores.

Ainda falando sobre essas peculiaridades do tema, você poderia citar qual dos livros foi mais desafiador e por quê?

Jesus, o homem mais amado da história foi, sem dúvida alguma, meu maior desafio. Eu não queria mais um livro que afirmasse o que todos já sabem que está nos evangelhos, que é a versão oficial da catequese diária, seja de evangélicos ou católicos. Eu não queria também escrever um livro oportunista (jamais conseguiria) exaltando a inteligência emocional de Jesus ou usando uma frase perdida num manuscrito para dizer que Jesus tinha relações sexuais com Maria Madalena. Fazer isso é fácil, mas é desprezível. Eu queria escrever um livro intrigante, que levasse o leitor a viajar comigo, e que trouxesse as informações mais corretas e precisas, mesmo que não pudessem (e muitas não podem) ser comprovadas. Queria um livro em que o leitor – cristãos, judeu, muçulmano ou ateu – pudesse confiar e também se inspirar. Pelos primeiros retornos que tive de pessoas que leram Jesus, o homem mais amado da história, penso que tive algum sucesso.

Você se considera uma pessoa religiosa?

Vivo o cristianismo de maneira muito intensa em seu aspecto cultural, minha formação é católica, mas não sou religioso. Medito sobre as questões da vida e da morte, mas não rezo. Não tenho nenhuma doutrina que guie minha maneira de pensar. Olho para o mundo com o interesse de um investigador e a paixão de um ser humano que ama a vida, que ama os seres humanos. Prefiro me definir como um espírito livre. Livre para pensar, refletir e entender a humanidade com as ferramentas intelectuais que temos hoje à nossa disposição.

Em sua opinião, qual é a importância de Jesus para a humanidade – seja do ponto de vista religioso ou não?

O pensamento dele, ou o pensamento que ele aprendeu, reformulou e ensinou, redefiniu a maneira como nos comportamos diante dos outros seres humanos. Não há ninguém que possa discordar que foi o homem mais importante da História. E eu venho neste livro afirmar que é até hoje o mais amado da história. Ele ensinou o amor ao próximo (ainda que tenha tido seus momentos de importância) e recebeu da humanidade um amor como, talvez, jamais veremos. Mas, muito honestamente, precisei de mais de 300 páginas para responder, no livro, a esta pergunta

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